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           Existe Outra Sada, Sim

           Rachel de Queiroz
           
Impresso Braille, em 2 partes,
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, da reimpresso,
Fortaleza, 2006.

           Primeira Parte

           Ministrio da Educao
           Instituto Benjamin Constant
           Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
           22290-240 Rio de Janeiro 
           RJ -- Brasil
           Tel.: (0xx21) 3478-4400
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          ~,http:www.ibc.gov.br~,

          -- 2007 --
<p>
          Copyright (C) by 
          Edies Demcrito Rocha
          Editora
          Albanisa Lcia Dummar Pontes
          Superviso e reviso de originais
          Vessillo Monte
          Seleo das crnicas
          Trcia Montenegro

          ISBN 85-7529-189-0

          Todos os direitos reservados 
          Edies Demcrito Rocha
          Av. Aguanambi, 282 -- 
          Joaquim Tvora
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          ~,livrariaedr@fdr.com.br~,
<P>
                                I
Catalogao na fonte
 Rodrigo Leite

<F->
<R+>
Queiroz, Rachel de.
Q3e   Existe outra sada, 
  sim / Rachel de Queiroz. 
  reimpr. -- Fortaleza : Edies 
  Demcrito Rocha, 2006.
<R->
<F+>
  128p. : il. color.
  
  ISBN 85-7529-189-0
 1. Crnicas brasileiras. 
<F->
  I. Ttulo.
<F+>
           CDU 82-94(81)
<p>

Orelha

  Existe outra sada, sim rene algumas das crnicas escritas por Rachel de Queiroz e publicadas originalmente no jornal *O 
 Povo*. 
  No seu fazer de cronista, a autora de O quinze e de outras obras clebres, veste sua percepo dos fatos da vida cotidiana do Pas com a mesma linguagem concisa que desde sempre lhe caracterizou o estilo.
  A prosa enxuta de dona Rachel no se limita a simplesmente retratar os acontecimentos, que toma por tema, antes procura lig-los  viso de sua tica pessoal e da tirar concluses, as quais no pretende que sejam as do leitor.
  Se, em sua obra ficcional, a escritora est  altura de outros mestres como Graciliano Ramos, Amando Fontes, Jorge Amado, na crnica destaca-se igualmente entre os grandes cultores do gnero.
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                            III  
  Seu olhar sobre a vida  um verdadeiro fornecer de elementos para uma sutil compreenso do mundo, assim como para o exerccio mais fecundo das idias.

Vessillo Monte

               ::::::::::::::::::::::::

  Rachel de Queiroz nasceu (1910-2003) em Fortaleza, mas viveu boa parte de sua infncia indo e voltando entre a capital e a fazenda da famlia em Quixad. Do confronto entre esses dois mundos nasceu, certamente, o mote para o seu primeiro livro. O quinze, clssico da literatura brasileira que ela escreveu aos 18 anos. Para ela, que comeou no jornalismo escrevendo a pgina cultural de O Cear, editado por Demcrito Rocha, o jornalismo  sua primeira profisso. Da para as crnicas que escreveu para a revista O Cruzeiro, quando j morava no Rio de Janeiro, foi um pulo. Primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, Rachel escreveu sete romances -- o ltimo, Memorial de Maria Moura data de 1992 -- peas e vrios livros de crnicas. Colaborou com o jornal *O Povo* -- jornal do qual  membro do Conselho Editorial -- at maro de 2003 quando, atravs de carta, informou aos leitores que estava suspendendo temporariamente sua contribuio com a imprensa brasileira.

               ::::::::::::::::::::::::

  "Ah, sei que tudo so utopias, sonhos. Talvez, talvez, talvez,  s o que digo. Mas sem sonho no se faz nada. O que so as grandes cidades, suas montanhas de edifcios, o terrvel progresso, seno sonhos realizados de alguns ambiciosos? Uma gigantesca hidreltrica -- Itaipu, por exemplo -- tambm  um sonho que comeou numa
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                               V
cabea de engenheiro, cresceu no papel e se ergueu em pedra, gua e fora.
  Podem dizer o que quiserem, mas me recuso a crer que os meninos da rua no tm soluo, fora a polcia.
  Acabar com a misria  a primeira soluo. Mas enquanto no se acaba com ela, por que no se tenta outra sada? Sem truculncia, sem represso, s com braos abertos?
  E mas quem -- que rico, que poderoso, que santo, ter esses braos prontos para receber os nossos meninos da rua?

               ::::::::::::::::::::::::

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Apresentao

  O gosto de ler no  um dom. O gosto de ler se pega, se ganha e fica para toda a vida. O livro, o jornal, a revista, o folheto, o quadrinho so os amigos de todas as horas.  o cachorro encadernado, que vem com voc, sempre solcito, mesmo nos piores momentos. Quando tudo vai mal, o livro nos puxa l do fundo. Nas boas horas, traz as idias que nos fazem voar. No pouco tempo vago que tenho e as quase duas horas dirias de transporte, no nibus, no txi, no metr, a mochila carrega a companhia que torna o trajeto na cidade engarrafada uma viagem mais amena.
  Esse mundo de possibilidades eu ganhei de minha av. Sentado ao p de sua rede, eu era o escutador privilegiado de histrias medievais dos reinos de Frana e da Inglaterra, de traies, vilanias e atos hericos. E tambm das lendas e histrias do serto, que ela escutava dos caboclos e recon-
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                            VII
tava, no s para mim, mas tambm para todos os seus leitores, pois que era esse reconto o charme de sua prosa. A contadora de histrias, com a pacincia e o amor de v, repetia e repetia a pedido do neto, as mesmas histrias e as melhores passagens, pois a repetio  a alma do aprendizado. E o neto percebia que havia, aqui e ali, uma mudana, que s vezes o aborrecia, mas que lhe dava a percepo da falibilidade da verdade histrica.
  Deixando de lado a av, o que falar das crnicas de Rachel? Sobre ela, muito j se disse sobretudo o fato de ser ela sertaneja. Mas o que  ser sertanejo? Quais os predicados que embasam a generalizao? Rachel com certeza  sertaneja, na medida em que sua prosa  seca como a caatinga. A linguagem  simples e direta, as idias so de fcil entendimento, mas o contedo chega a ser agressivo, pela falta de contemporizao com as fraquezas humanas. Nestes tempos de proliferao de manuais de auto-ajuda, carregados de lies morais para o bem viver, Rachel desponta como referncia oposta, pela ausncia de moralismo em suas mensagens, pela inexistncia de receitas do que  bom e do que  mau. s vezes, chega a transparecer, nas entrelinhas, sua certeza de que os maus sentimentos so a norma entre os seres humanos e que as boas coisas construdas pelo homem visam  neutralizao dessa decadncia moral.
  O outro lado do sertanejo  a sua herana rural. Mesmo que vivendo h dcadas na cidade, ele guarda o serto como sua morada espiritual. O espao urbano no  mais do que um lugar de sobrevivncia do *modus vivendi* do sertanejo. (Lembro aqui um porteiro do prdio de minha me, que teimava em sangrar um porco em uma garagem de um prdio de apartamentos na zona sul do Rio de Janeiro). O olhar rural e agudo de Rachel 
                             IX
sobre o mundo moderno e urbano do Rio, de onde escreve para seus conterrneos, perpassa todas as suas crnicas, fazendo o contato entre os dois mundos. Aparecem metforas com animais, para explicar o mundo dos humanos e referncias ao tempo de espera do sertanejo, que aguarda a chuva como uma redeno bblica, fazendo da espera um exerccio de aprofundamento do cotidiano. Vocs podero ver nas crnicas como  cotidiano a base da reflexo, como nada de grandioso  preciso acontecer para que se anime o pensamento.
  O centro de sua preocupao  o mundo moderno: a sua descrena na tecnologia e o seu desconforto com a velocidade contempornea so ambguos, pois, por vezes, surge um deslumbramento com alguma mquina ou com alguma facilidade da vida moderna, como  o caso do helicptero, que lhe traz fascinao por se assemelhar a um passarinho, que plana e evolui durante o vo. Para depois surgir o automvel, como mquina que destruiu o modo de viver tradicional. Essa mescla de descrena e fascnio d ao seu conservadorismo um tom especial, de algum que, saudoso do passado, contempla a inevitabilidade do futuro.
  E, por fim, as memrias. Poucas mulheres no Brasil viveram o sculo XX com a intensidade de Rachel. Em meio s reflexes sobre temas dirios, surge um fato inusitado, uma priso em uma unidade de um corpo de bombeiros durante o Estado Novo, uma viagem de ITA do Norte de Belm para o Rio, uma danarina de cabar da Lapa dos anos 30. Poucas pessoas dispem de to vasta memria sobre o Brasil do sculo passado. A memria de Rachel  carregada de um encantamento do mundo, de momentos sublimes, como a ida a cavalo  serra de Guaramiranga, nos idos de 1919. Esse encantamento ela passava ao neto que a escutava e aparece no fundo das 
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                             XI
crnicas, como um contraponto ao mundo desencantado que a tecnologia produziu e que a sertaneja estranha. O mundo de Rachel  o mundo medieval, das grandes navegaes, do Infante D. Henrique, do imaginrio fantstico do sertanejo, povoado de Mapinguaris, onde a cronista urbana  uma exilada, que faz de sua crtica o seu protesto ecolgico e libertador.
      
Flvio de Queiroz Salek

               ::::::::::::::::::::::::

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                           XIII
Sumrio Geral

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<R+>
A cobra que morde o rabo ::: 1 
Crnica dos dias grandes ::: 5
Alm das praias e 
  caatingas ::::::::::::::::: 11
O que nem a morte separa ::: 14
Todo dia  da me :::::::::: 19
Pequena histria do dia-a-
  -dia de meninos de rua :::: 24
O eterno feminino :::::::::: 28
O fim das famlias 
  numerosas ::::::::::::::::: 33
Os pssaros :::::::::::::::: 39
Ai, que saudade :::::::::::: 45
Quem prende o guarda? :::::: 49
A fora da gravidade ::::::: 54
A fbula do homem e seu
  garrafo :::::::::::::::::: 59
Quem com ferro fere... ::::: 63
O imaginrio mgico :::::::: 69
Saudades de Guarami-
  ranga ::::::::::::::::::::: 74
Esta minha eterna 
  litania ::::::::::::::::::: 79
Nosso velho problema ::::::: 84
<P>
Eu e o meu bisneto 
  Pedro :::::::::::::::::::: 89
40 graus  sombra :::::::::: 94

Segunda Parte

O carnaval, a lngua e o 
  correr do tempo ::::::::::: 101
A "incendiria" e os 
  bombeiros ::::::::::::::::: 107
No se cantam pesares :::::: 111
Prego de biela ::::::::::::	116
Velhos carros :::::::::::::: 121
Amor & poder ::::::::::::::: 127
Uma histria de Natal ::::: 133
Voc tem medo da morte? :::: 140
Existe outra sada, sim :::: 145
Falem tambm na msica, nas 
  flores e nos amores ::::::: 149 
Enxertando a vida :::::::::: 154
Prazeres ::::::::::::::::::: 159
Esse estranho animal ::::::: 164
Muito alm do rock ::::::::: 168
A imagem do homem :::::::::: 173
O vo do helicptero ::::::: 179
O mistrio da vida ::::::::: 186
O saber e o falar :::::::::: 191
<R->
<F+>
<11>
<toutra sada>
<t+1>
A cobra que morde o rabo
      
  Mais um ano que se passa. Quando eu era menina, pensava na passagem do sculo e dizia comigo: Vou estar muito velha. Quando acabar 1999, eu irei completar oitenta e nove anos! E esses oitenta anos me pareciam to distantes quanto o fim do mundo; e imaginava como seria eu, ento (se sobrevivesse at l), velhinha, apoiada no basto, ralhando com os bisnetos... e j c estou, sem basto, andando livremente (at de salto alto, s vezes!) enfrentando a vida e suas tristezas, com a velha resignao cearense, que a gente j traz na massa do sangue. No sei muito bem como se comportam os outros ante a adversidade, mas creio que ns, cearenses, temos a alma elstica: a batida vem, mas a gente reage sempre e se levanta. Tiramos o exemplo da natureza  a nossa natureza, l! V, por exemplo, ao serto nordestino, nos meses de novembro e dezembro, o povo, l no tira os olhos do cu, em procura dos prenncios. Pequenas nuvens ao poente... pequenas, claro, ainda no  tempo das grandes, mas se elas se juntam para o sul, quer dizer uma coisa; se aparecem ao poente, a coisa muda. S o que eles no dizem  que coisa ser essa: como todos os adivinha do mundo, gostam de se envolver em mistrio. E aquelas nuvens inocentes so branquinhas como se fossem feitas s de gelo e neve, no tm nada a ver com chuva, so s enfeites do cu...
<12>  
  Aqui no Rio, chove e a gente se maldiz. Ousam os nativos dizer que a chuva "estragou" a exibio de fogos na passagem da meia-noite. Mas a velha Chiquinha Rufino  que sabia interpretar essas coisas: "fogo  coisa do diabo, e a chuva  coisa de Deus".
  Por mim, no gosto de passagem de ano. Cada ano que se acaba  como se o cortasse de mim. Era meu e no  mais. Eu dependia dele para fazer projetos, marcar viagens, dividi-lo em mnimas pores: "Semana que vem vou a So Paulo, fao isto e aquilo l" (divido as horas e at os minutos em variados compromissos).  como se eu tivesse comprado o tempo para o meu uso.
  E como a gente se engana! O tempo  que  o nosso dono, suscita o inesperado, valendo-se das coisas mais nfimas. At um salto de sapato que se quebra pode impedir o encontro definitivo da sua vida: voc no consegue chegar na hora, e a pessoa amada vai embora aps a espera intil, certa de que a sua ausncia era a prova definitiva do rompimento. E quando voc consegue chegar ao ponto marcado, com duas horas de atraso, a pessoa amada j foi embora, certa de que tudo acabou.
  O que estou querendo dizer  que a gente  muito mais joguete das circunstncias do que se pode imaginar. E estava errada minha av, quando dizia: "Tudo que Deus manda  para o nosso bem". Primeiro,  at um pecado acreditar que Deus Nosso Senhor, l do seu trono, no paraso, vai se preocupar em quebrar o salto do teu sapato e, por via disso, pr fim a um caso de amor. Na realidade, na sua maioria, os casos de amor so fora-da-lei, ou dos costumes, ou dos preconceitos. Deus Nosso Senhor no cuida deles; e, embora os veja se quiser, j que 
<13>
Ele pode ver tudo, deve sorrir paciente, diante das nossas vicissitudes sentimentais e esperar que passem. Ele, mais que ningum, no cu e na terra, sabe que tudo passa. Alis, tenho a impresso de que a grande sorte do ser humano, na sua passagem pela vida,  saber que tudo  transitrio. A comear pela prpria vida, a sua prpria existncia. Alm de to curta, to repartida: infncia, mocidade, maturidade, velhice, cada captulo tem sua sorte prpria, seus risos, suas dores, seus mistrios.
  Mas o curioso  que viver no  um aprendizado. Um velho de cabelos brancos  to inexperiente e crdulo quanto um menino, diante da vida. Cai nos mesmos tropeos, o menino ao aprender a andar, o velho que j no pode confiar nas pernas para cruzar os passos. E a gente acaba, na vida, no mesmo ponto em que comeou. Como a cobra que morde o rabo.

               oooooooooooo
<14>
 
Crnica dos dias grandes
      
  Os carnavais vo ficando cada vez mais parecidos com parada militar de 7 de setembro. E chegando-se  idade madura, o Carnaval perde todo sentido. Sendo a festa especialmente dedicada aos romances, os ditos romances j sero idos e vividos. Ento, Carnaval, pra qu?
  Quando voc tem seus cinco, seis anos, o tempo se mede pela data mais importante: o Natal. A rvore, a "lapinha", que era uma reconstruo de cenrio do nascimento, os presentes para o Menino, a Missa do Galo.
  Chegada a adolescncia, os interesses do uma guinada e voc passa a considerar o Carnaval o perodo mais importante do ano que comea. Dependendo da idade, o mais excitante  a fantasia para exibir na rua, de mos dadas com a me ou a tia; e tambm h o concurso de fantasia mais bonita: marinheiro, cigana, fada; alis, eu uma vez brilhei, aos 7 anos, numa fantasia de cigana, mas no tirei o prmio. E, depois disso, recusei-me sempre a enfrentar qualquer concurso. Alegando que concurso era "muito puxado", (eu ainda no sabia falar "estressante"). Ou ainda no existia a palavra?
<15>  
  Todo mundo se queixa do Carnaval de atualmente -- o pessoal mais velho, claro. E no vale a pena discutir o assunto  se em 1939 foi melhor do que em 44  ou o do ano tal e tal. Cada um guarda um Carnaval "personalizado" em seu corao e aquele, claro,  que  o pior ou o melhor.
  Chegando-se  idade madura, Carnaval, como experincia pessoal, perde todo sentido. Sendo a festa especialmente dedicada aos romances, os ditos romances j sero idos e vividos, ento, Carnaval, pra qu?
  Para ns, os seniores, acontece que os carnavais vo ficando cada vez mais parecidos com parada militar de 7 de setembro. A gente estuda o itinerrio, arruma a meninada, bota o carro na rua, estaciona com dificuldade, e sai para ver a parada propriamente, ou, se tem sorte, consegue trepar num degrau e ver a tropa passar.
  Uma coisa que sempre me perguntei  por que criana faz tanta questo de ir  parada. Tem que ser banhada e areada, vestida, se comportar bem, no pode chorar nem brigar, aquela coisa; mas quando a TV comea a anunciar os desfiles, elas gritam e choram, at que nos obrigam a jurar que as levaremos.
  Eu acho que as crianas traduzem com mais franqueza os nossos prprios sentimentos. No fundo, todos gostamos de ir  parada. Soldado desfilando, banda de msica tocando, mexe com os elementos mais profundos da nossa alma. Ou sero os sentimentos da infncia que vm  tona toda vez que suscitados?
  Ser que em ns no morre nunca o senso tribal de pertencer a um grupo, famlia, nao? O mais sofisticado dos internacionalistas, ser que no sente qualquer coisa ao deparar-se na rua, ou mesmo ver na TV, um grupo militar que se organiza, bate os calcanhares, leva a mo em pala  testa, em continncia  bandeira nacional?
<16>  
  Outro dia topei com um canhestro tiro de guerra (ainda h disso?) e quando me vi, estava tambm em posio de sentido e elevando a mo direita para a continncia. Parei a tempo. Pensando bem, no devia ter parado. Os velhos gestos simblicos devem ser cultivados, porque a natureza humana tem carncia dos seus smbolos.
  O homem  um animal gregrio por natureza; tanto que o maior castigo que se d aos criminosos, depois que desapareceu o aoite,  o confinamento solitrio. Durante o longo aprisionamento de Lus Carlos Prestes, o que mais nos impressionava a todos, era a solido em que  dizia-se  o mantinham.
  Do lado oposto, no h nada mais aflitivo do que se ver algum perdido, empurrado no meio de uma multido; mormente, se fala lngua estranha. E se as caras so tambm estranhas, olhos azuis que voc fora ensinado a achar bonito, e agora lhe parecem duros, cruis, como pedaos de vidro.
  Resumindo: *mutatis mutantis*, somos bichos de rebanho. Queremos companhia, a todo tempo. Queremos companhia, pelo menos a dois  mas isso s nos jogos de amor. No mais, precisamos nos ver uns aos outros, nem que seja para brigar. Ou principalmente para brigar? A briga, dentro de limites,  sempre saudvel. Os jovens jornalistas de provncia s se sentem realmente consolidados no ofcio depois de sustentarem uma "polmica" com outro colega.
  Eu por exemplo, comecei mantendo uma "polmica", (cada qual sob pseudnimo) sabe com quem? Com Dom Hlder! Ele jovem clrigo, eu marxista petulante, todo o Cear nos acompanhou.
  E da, ficamos amigos verdadeiros. E espero que, indo embora eu antes dele, venha o Padrezinho me fechar os olhos e murmurar aquelas preces que, segundo se espera, nos levam a alma direto para os portes da luz.

               oooooooooooo
<17>            
Alm das praias e caatingas
      
  Afinal, aqui no Rio, j curtimos uma temperatura compatvel com a vida humana. Pois que, at ontem e anteontem, a gente escaldava dentro de casa, torrava na rua, estacionava, imvel diante de qualquer fonte de ar refrigerado, bebendo o fresco como quem bebe champagne.
  O pessoal diz: "Voc, do Cear, estranhando o calor? E eu respondo: "No Cear temos calor, mas temos o vento e a brisa". O famoso vento aracati que sopra s tardes e traz at o serto o seu cheiro de mar. Aracati, em lngua de ndio quer dizer vento bom, vento bonito: "ara, vento, catu-ou-cati, bom, bonito ou agradvel". Pelo menos foi o que nos ensinou na escola o professor Mozart Pinto, homem suave e sbio, nosso guru no curso normal.
  Alis, o pessoal do Sul do Brasil  cheio de preconceitos contra o Nordeste, fonte de onde lhe chegam em massa, cearenses, paraibanos, piauienses, etc. Imaginam que somos pouco melhor do que ndios mansos; quando desembarcam nas nossas cidades (que hoje j esto incomodamente crescidas e adiantadas) so tais as exclamaes com que nos brindam, que ns nativos, conscientes at demais das nossas deficincias, temos vontade de lhes oferecer furarem o beio, enfiar nele um batoque, como rito de boas vindas...
<18>  
  Ser exagero, este nosso ressentimento. Mas no  exagero muito grande. No sei o que esperavam ver em Recife, Fortaleza, Belm do Par. Mas com certeza no era o que encontram.
  E ns no lhes devolvemos o troco, porque no fazemos turismo na terra deles; quando pegamos uns trocados extra, vamos passear na Europa ou visitar o nosso filho que estuda nos Estados Unidos. Brincadeiras  parte, o Brasil, as diversas espcies de brasileiros deveriam se conhecer muito melhor. O turismo interno segue roteiros imutveis: velhas igrejas de Minas, cavaleiros gachos no Sul, delrio urbano no Rio de Janeiro.
  Do Nordeste, s se fala nas praias -- ningum se lembra de mostrar as nossas serras, -- Guaramiranga, por exemplo, onde as crianas tm faces rosadas e as frutas tm cheiro de flor...
  Mesmo serto adentro, tanta coisa pra mostrar... Por exemplo os serrotes de Quixad, monlitos que cercam a cidade como se guardassem bastes em slido granito; o sol quando bate neles esquenta a pedra at graus altos. A gente da terra j sabe disso e evita escaladas. Mas quantas vezes temos que acudir incautos turistas, que tiram o sapato para facilitar a ascenso e ficam l de cima pedindo ajuda, com as solas dos ps sangrando, e quente do sol. Ento! Mas turista  uma raa de gente que imagina tudo "uma aventura", sem saber que toda aventura tem seus riscos.
  Outra imagem difundida nas cidades,  o serto tradicional, s a caatinga, a galharia seca. Pois vo ver como est agora, neste comeo de inverno de 1999! Meu Deus, como est perto do novo milnio! Vocs no tm medo? Eu tenho, isto , no  bem medo  antes inquietao; pelo desconhecido... At 1999 estamos habituados ao primeiro milnio e estamos agora entrando na era de dois mil. No parece, ento, que entramos em territrio desconhecido, perigoso?    

               oooooooooooo
<19>
 
O que nem a morte separa
      
  Trasladaram para a tumba do marido, os restos mortais de Carolina Machado de Assis. Lembram-se do belo soneto: Querida, ao p do leito derradeiro... que ele dedica  mulher morta? O eterno ctico nem na dor se desmente: Trago-te flores, restos arrancados  terra que nos viu passar unidos e ora mortos nos deixa separados...
   Quando morreu Machado, ainda no existia o mausolu da Academia. Por que no o enterraram no tmulo da mulher? Agora, solenemente repara-se a falta, juntam-se os dois. Mas juntar o qu? -- vale perguntar. Duas caixinhas com mais cinzas do que fragmentos de ossos. Ento por que no se juntam as cinzas no mesmo invlucro? A, sim, far-se-ia o encontro definitivo.
  Costumamos dar muita importncia a essas transferncias de cinzas, oferecer-lhes local condigno, reunir amantes ou esposos separados; s vezes at transportamos os mseros despojos de num local distante para o outro lado do mar. E  to pouco, repito, o que se leva no transporte! Digo isso porque j assisti a uma traslao de pessoa minha e fiquei horrorizada. O caixo j estava de tbuas apodrecidas e os operadores, retirando a tampa afundante, cataram, literalmente cataram, os fragmentos dispersos; um ossinho aqui, umas costelas ali e o que devia ser o crnio estava reduzido a uma meia-lua de cor encardida. Ali, no que fora a sede da inteligncia, provavelmente a habitao da alma do finado.
<20>  
  Sa de perto correndo, fui me sentar na borda de mrmore de um tmulo estranho, e chorei. Mas chorei no vazio, no vcuo. As lembranas da pessoa amada, que tnhamos em casa, nos falavam muito mais que a sepultura -- seus culos, seu velho smoking no guarda-roupa, sua caneta que eu herdara; e o mais rico de tudo: as pginas que deixara escrita.
  Mas tudo bem, a gente foi o que pde: vamos reunir as poucas cinzas resguardadas, embora o que fora substncia delas tenha ficado no recanto onde primeiro estiveram. Vamos trasladar praticamente smbolos, mas, o que  a nossa vida, seno uma procisso de smbolos?
  Afinal, os smbolos representam a nossa luta contra as durezas da realidade. Os parentes de Carolina, se ainda existirem, iro rezar por ela junto ao tmulo novo, onde foi depositada a caixa com os chamados "restos" dela. Restos, sim, que couberam todos na pequena caixa.
  No cemitrio existente na fazenda de minha av, enterram-se todos os defuntos da regio. Mas pobre no conhece isso de lpides, nem poderia empreg-las se soubesse. Sobre cada caixo, pem uma cruz de madeira, que pode trazer, gravado a ponta de faca, o nome do falecido. Mas logo a rude cruz se estraga. E, no local do seu dono, como o cemitrio  pequeno, assim que  possvel se enterra outro morto. Joga-se fora a cruz do antecessor. E como s recentemente, ali se praticam enterros com o defunto num caixo, o jeito  abrir a cova e, se j tem outro ocupante, pacincia. Juntam-se os ossos visveis, faz-se um montinho que se enterra numa escavao lateral, no prprio buraco que vai ser ocupado; e numa cruz nova, to perecvel quanto a outra, se pe o nome do recente hspede.
<21>  
  Quando a famlia do primeiro vem, dia de finados, chorar sem morto, j encontra no local o desconhecido. s vezes eles se irritam e os mais malcriados ameaam cavar e atirar fora os restos do intruso, mas algum lhe faz medo; ningum gosta de bulir com alma do outro mundo. E ento manda-se o coveiro cavar com cuidado, para no "ofender" (ou molestar fisicamente) quem chegou primeiro. Afinal de contas, os dois, onde quer que estejam, podem muito bem resolver o assunto entre si.
  E j que falamos no assunto, queria fazer um pedido: quando eu me for, gostaria que me enterrassem no cemitrio da Califrnia (a fazenda "Califrnia") onde j est a maioria da minha gente. Junto de meu pai, junto a ele, sei que dormirei tranqila por toda a eternidade; como dormia nos tempos de menina, quando eu chorava de insnia e ele vinha contar uma histria para me embalar.

               oooooooooooo
<22>    
      
Todo dia  da me
      
  Festejamos amanh, oficialmente, o Dia das Mes. Mas, como diz uma me minha amiga, qual  o dia que no  dia da me? Desde o dia em que concebe o filho, at o dia em que ela prpria morre, sua condio de me funciona, ininterrupta. Pode chegar aos mais perigosos extremos, "mas  pelo meu filho". Me de heri, ela participa do palanque que o festeja; me de acusado, ou mesmo de criminoso, ela aceitaria at ser presa em lugar dele, para o ver a salvo.
  Como diz o ditado: "Me  me!." Essa devoo da me  cria no  um condicionamento social:  essencialmente biolgico.  a natureza que fabrica o corao de me, tal como , disposto a tudo para proteger o filho, at a morrer por ele, se for o caso. Lembro uma moa, minha conhecida, que passando por uma gravidez de alto risco, recusou rispidamente a retirada do feto de dois meses, dizendo s isso: "Se for o caso, ele fica e eu vou.  a ordem natural das coisas". Valeu o herosmo, pois que a moa sobreviveu, a criana tambm. Parece que Deus gosta de heris -- e heronas.
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   figura clssica, na histria dos flagelos sociais, a me que passa fome para alimentar os filhos. Seria at motivo de escndalo, se ela se alimentasse antes da cria; ningum iria entender, nem acreditar em tal despautrio.
  Infinito  o folclore, em qualquer cultura, sobre o que se espera da me e o que se recebe de sua parte. No mundo ocidental, criou-se, pois, o Dia das Mes, que se celebra com missa, ajantarado e mais ocorrncias festivas. E a me, prima-dona dessa pera, como  que se comporta na ocasio?
  Procurei observ-las, no seu dia, e vejo que, nos fins de contas, so elas prprias que, na maioria, enfrentam o nus da celebrao.  na prpria casa dela que os filhos vm comemorar o seu dia. As noras arranjam qualquer presentinho pfio e chegam, com a filharada, se existe, ou com sua prpria tribo familiar; a me dela que no tem tempo nem dinheiro para festanas e vem, com os seus direitos de sogra, tomar parte no comando da operao. Juntam-se filhos e noras que tambm so mes, e a coitada da me de todos que agente o duro peso do seu dia.
  Na verdade, o amor de me no  uma imposio social, mas, como j foi dito,  um condicionamento biolgico. Todo bicho, quando me vira uma fera. Outro dia, aqui no meu escritrio, fui vtima, bastante dorida, de um acesso de amor maternal.
  Um grande maribondo sobrevoava a minha mesa de escrever. Entrava pela janela, passava sobre minha cabea, uma vez, duas vezes. Eu sempre tive medo de maribondos, principalmente depois de uma ferroada, na fazenda, que me deixou de bochecha inchada por vrios dias. Assim, tratei de enxotar a intrusa, ou o intruso, batendo o ar, no seu caminho, com um jornal dobrado. Mas o maribondo no se assustava, dava uma voltinha e vinha de novo, passando por cima de mim.
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  Certa vez, em que tentei assust-lo com mais fora, ele veio contra mim furioso, e tive que fugir vergonhosamente da picada. Vi que o inseto ( inseto, no ?) combatia por uma causa que lhe parecia impositiva, e me pus a procurar essa causa. Acabei descobrindo, na prateleira mais elevada da estante, no alto do meu mais precioso dicionrio, um ninho de vespa, construdo com barro, montado no alto do segundo volume, de onde no o consegui desalojar seno com relativo prejuzo da margem superior de umas dez pginas.
  Quase chorei, ante a avaria do meu livro. E chorei mesmo, depois, j que o danado do maribondo me vendo destruir o seu ninho, veio direto, me ferrou na face, deixando-me de cara inchada por trs dias! Raspei o barro do ninho, lavei como pude os vestgios do ocupante. Mas qual no foi a minha surpresa quando, semanas depois, no mesmo local do ninho anterior descobri, feito em barro, bem redondinho um novo ninho de vespa. So proezas essas oriundas do amor materno, mesmo que a me, no caso, seja um maribondo.
  Claro que o Dia das Mes  uma festa de carter universal. E descobri que as mes a levam muito mais a srio do que se imagina. Por exemplo: vim a saber que certa me, comprava ela prpria os presentes que lhe deveria dar o filho casado, porque "desconfiava da nora", muito capaz de levar o marido para a festa da prpria me dela, "e eu no quero que meu filho passe por ingrato". , o jeito  repetir o dito universal: "Me  me!
    
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Pequena histria do dia-a-dia de meninos de rua
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  Por que a gente vai ser menino de rua? Bem, comea com a pobreza. Barraco de morar ou coisa pior: muita criana querendo comer, a me trabalha, pede esmola, ou cai na vida, como se diz. E ento a gente fica sozinho, nem sempre a me traz comida  as crianas brigam uns com os outros. Mas o pior de tudo  o padrasto. Pai, pai mesmo,  raro de haver. Pouco menino de rua tem pai dele dentro de casa. Pai e me juntos, rarssimo. E pai sozinho, sem me, tambm, quase nunca. E padrasto tem cime da gente, tem raiva. Tem pena do prato de feijo que a gente come, chama a gente de vagabundo. Vem logo pra bater. E, ou a me no deixa, defende, e ele bate nela, e a gente se embola. Ou a me deixa, a a gente fica com dio e ento foge.
  Com menina ainda  pior. Muito raro padrasto que respeita. A menina vai se pondo moa, formando o corpo, j viu. Padrasto sabe que no  nada dela, nem padrasto mesmo de verdade -- s amigado com a me. E a, por que no? Toda menina que eu conheo tem medo do homem da me dela. E ela tambm sai de casa. Melhor qualquer homem que aquele velho, cachaceiro, que nem pra me servia  a me, que  velha tambm.
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  Comea a gente fugindo por uns dias. J sabe como , os outros meninos contam. Na rua  tudo solto, se arranja comida em qualquer canto, pede esmola nos sinais de trfego, faz uma cara triste pra tudo que  mulher motorista  os meninos dizem  pra pedir a todas que, de cem, uma d. E como passa mais de mil a toda hora  sempre se apanha algum trocado.
  Bem, no deixa de ser perigoso. Na hora de dormir, ento, pra quem no est bem enturmado,  fogo. Tem sempre um grando que comea com agrado, os outros avisam: cuidado -- esse cara quer te pegar. No comeo a gente nem entende direito  e quando entende, ou corre ou deixa. Pode ter quem goste; eu, s me d vontade  de pegar uma faca e cortar fundo o cachorro. Um dia ainda fao isso e eles a vo respeitar.
  Dormir na calada a gente acostuma. Faz cama de papel, arranja um papelo... Agora aquelas donas da caridade andaram oferecendo cobertor. Mas  muito pouco cobertor para tanto menino  s algum apanha o seu.
  O bom seria a liberdade, ningum mandando, no tem escola, no tem me nem o homem dela enchendo o saco. Mas l um dia bate uma saudade. A gente arranja uns trocados, pega o trem, volta em casa. Se tem casa.
  Mas no d pra agentar. Todo mundo xingando a gente de vagabundo, trombadinha, pivete. E os outros meninos dali, ento, parece tudo abestado. Da, nem todos. Sempre tem um ou outro querendo fugir tambm. E na primeira vez que o padrasto levanta a mo pra ns, ou bate na me ou nas meninas, a gente se pode reage  mas nem sempre pode. E comea tudo outra vez.

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O eterno feminino
      
  Todo mundo se queixa de que a vida anda difcil. Cada vez mais difcil. Eu j acho que  um pouco diferente: a vida no anda propriamente difcil. O que ela anda, cada dia mais,  complicada. Devem existir cdigos que resolvam essa complicao. Mas onde esto esses cdigos?
  De primeiro tudo era lento. Voc no fazia visita  casa de seus parentes: voc ia passar o dia. Voc no se largava num avio, voava 4 horas ou mais para ir ao Cear fazer um discurso e voltar na mesma noite. Hoje tem gente que vive fazendo isso e no se queixa. Ao mesmo tempo as facilidades trazem as complicaes. Voc tem que obedecer a horrios rgidos porque o seu motorista no tem onde lhe esperar e vai estacionar o carro a vrios quarteires de distncia, onde isso for possvel. Aquele sonho de descer do trabalho e encontrar seu carro, de motorista e tudo,  sua espera,  sonho mesmo. Voc desce no centro e tem que andar a p vrias quadras at ao local onde o seu carro achou vaga  se achou. Ento voc desiste e resolve andar de txi; mas sabe Deus as correrias, as habilidades, o avano num txi que algum chamou  sua frente, fato que voc finge ignorar. Ento por que no andar de nibus numa hora de *rush*?  Sem comentrios. 
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  Por falar em nibus, eles agora apresentam uma novidade: os assaltos. E parece que os assaltantes ou so muito fortes ou andam muito bem armados, pois conheo muitos cavalheiros que preferem entregar docilmente a carteira ao invs de entrar em luta com o ladro. E estou falando especialmente em homens: porque passageira mulher, principalmente se for velhusca e gorda, no tem vez nunca --  roubada. As bonitinhas, as jovens ainda se arranjam com um sorriso. Mas nem sempre. A maioria dos homens no se comove mais com sorrisos e olhares implorativos do mulherio. O que ajuda, s vezes,  uma criana. E no tarda haver criana de aluguel para ajudar as fingidas mes nas filas de conduo. Ah,  como eu disse: a vida  cada vez mais complicada. Nos tempos felizes em que a mulher no se tinha liberado e era "a escrava do lar" os homens se apressavam em ceder o lugar no nibus a uma senhora, fosse ela velha ou gorda como j se disse. Dado isso tudo, o mulherio aprendeu a se virar. Finge doena, manca, arrasta uma criana pela mo para garantir o fugitivo assento.
  . No  fcil ser mulher hoje em dia. E qual a finalidade dessa transformao? Muita mulher acha at que virou homem. Para isso s se veste de calas, to masculinas, que da cintura para baixo, no se sabe o sexo do portador. Circunstncia que alis, os homens aprovam, pois quanto mais masculinas elas se mostram, mais liberados se sentem eles dos velhos deveres da cortesia.
  Isso tudo se d na rua, entre homens e mulheres que se desconhecem. Mas dentro de casa, nas lidas domsticas, o que foi que mudou? Mudou muita coisa. Voc pode pensar no seu av, em mangas de camisa e colete, mudando fralda de criana? Hoje em dia creio que eles at fazem cursos dessas habilitaes. Lavar panelas, eles gemem, mas aceitam a sua parte mesmo porque a mulher "descobriu" com toda segurana, que o homem  muito melhor cozinheiro do que ela. As provas disso esto s centenas. Qual o restaurante que se respeite que tenha uma cozinheira mulher? Antigamente ainda havia os pequenos restaurantes familiares onde a me cozinhava e o pai servia  mesa. Hoje nem mais isso se encontra. Mesmo nos pequenos restaurantes familiares,  o homem que comanda o fogo.
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  O que que ns, mulheres, ganhamos com essa transformao? Em primeiro lugar perdemos status: aquela quase reverncia de que gozava uma senhora enfrentando a rua. Hoje, eles at nos do cotoveladas em meio  correria para chegar ao nibus ou ao txi. No tem mais nem aquela do homem nos cumprimentar tirando, ou mesmo levantando levemente o chapu. Tenho certeza que foi s para se livrarem dos cumprimentos que os homens deixaram de usar chapu.
  O nosso ltimo reduto ainda  a maternidade. Os homens ainda se mostram gentis diante de uma mulher grvida. Mas de uma maneira meio irnica, como se dissessem: queria ver se a gente ficasse grvido se vocs nos cederiam a vez nas filas. E confessemos: tem muito homem que, nas filas, s olha mulher dos ombros para cima, no correndo o risco de ver o que elas podem apresentar dos ombros para baixo.
  Fazendo-se um inqurito entre homens e mulheres de hoje em dia, descobre-se uma resposta singular: as mulheres esto muito mais satisfeitas do que os homens com os novos costumes sociais. Mulher  danada: quem pensar que ela veio ao mundo para ser acomodada, gentil, boazinha, est muito mal enganado. Sabem qual  o lema atual da maioria das mulheres? -- "Guerra  guerra". E pelo andar das coisas parece que, de batalha em batalha, so elas que esto ganhando.

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O fim das famlias numerosas
      
  Antigamente casavam-se uma moa e um rapaz, na disposio de comearem uma famlia. O marido ia para o trabalho, a mulher ficava em casa, criando os filhos que apareciam. Tudo bem. Ele era o provedor, ela o sustentculo do ncleo familiar. Os deveres divididos, pelo menos na maioria dos casos, estava tudo certo. Mas o mundo mudou e hoje o marido, sozinho, raramente d conta da famlia. Pelo menos  isso que alegam as mulheres, ao procurarem trabalho elas prprias. E ento o ofcio de me tem que passar a outra me, substituta.
  Feliz dela, que tem me ou sogra que possam ajud-la. Mesmo nos casos em que o marido ganhe o suficiente, a mulher moderna s se sente realizada quando tem emprego ou profisso prpria. O marido, docemente constrangido, na verdade v com alvio a ajuda financeira que lhe traz a mulher. A vida cada vez mais cara  a explicao desse alvio material. O dinheiro que a mulher ganha serve principalmente para as despesas pessoais dela, roupa, cabeleireiro e at mesmo um carrinho, para ela mesma dirigir. Sem contar com a sua contribuio s despesas da casa.
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  E os filhos? No sei. Mas elas resolvem esse problema delicado  custa de babs ou com a ajuda daquela me ou sogra de quem falamos. No fundo, quer dizer que as solues para uma famlia onde pai e me trabalham fora deixam algum prejudicado. Ou a me se multiplica fazendo os trabalhos domsticos nas horas em que no est no emprego, o que no  soluo, ou as crianas ficam mais ou menos ao deus-dar; as babs no tm preparo educativo e no melhor dos casos o que tm a dar  meninada  o seu bom corao analfabeto.
  O problema hoje se prope em todas as famlias. Muito poucas mulheres casadas se resignam a renunciar a uma carreira prpria e se afundarem no servio domstico. Essa, a atual situao das famlias de classe mdia. E tem as creches. A, tudo depende da sorte porque, de modo geral, no se pode garantir que as creches sejam excelentes e substituam perfeitamente o conforto de um lar. Nisso tudo, eu no lamento a sorte dos maridos ou das crianas, mas principalmente os apuros em que se v a me. Por melhor que seja a creche, criana adoece. E nessa hora, a me  in-subs-ti-tu--vel. Creche nenhuma se responsabiliza por uma criana doente. E a?
  Claro que a me no pode faltar  cabeceira do filho. Mesmo que se trate de uma executiva importante, ter ela que abandonar o trabalho, as suas responsabilidades do trabalho so imperativas: quanto mais importante  esse trabalho, mais difcil  afastar-se dele. Mas quem vai tratar do filhinho com febre de 40 graus? Nesse caso, toda me abandona o trabalho e vem cuidar da criana. A carreira da me, por brilhante que seja, fica em segundo lugar. E a posio que a pobre mulher, exausta, ocupava com tanta eficincia, fica a pedir um substituto. Os chefes mostram o seu descontentamento e a mulher tem que fazer a sua opo naquele instante dramtico. Ou acode ao filho enfermo ou salva sua carreira. No sculo atual, a soluo para esses casos aparece quase sempre com o sacrifcio das crianas.
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  E isso ocorre em todas as camadas sociais, desde a chefe num posto importante e alto salrio at a empregadinha domstica, que deixa o filho em mos alheias para poder tomar conta da cozinha dos patres. Trata-se de um assunto de soluo quase impossvel. Na ex-Unio Sovitica, eles davam a liberao da mulher como caso resolvido atravs das creches. Mas parece que at l mesmo, dentro da chamada disciplina socialista, me nenhuma conseguia se afastar do filho enfermo, nem as crianas se conformavam com a tal disciplina socialista.
  J pensou como estar o corao de uma presidente de empresa, obrigada a resolver os assuntos que lhe so impostos imperiosamente, pensando no filho doente que ficou com a bab? Ou uma mdica que  obrigada a dar planto num ambulatrio, tratando de estranhos, quando sabe que o seu prprio filho est por sua vez entregue a estranhos? Creio que numa sociedade justa toda me de filhos pequenos deveria ter o seu ofcio materno considerado como emprego de tempo integral. Mas tudo isso so utopias. No existe uma cadeia de responsabilidades que funcione para satisfao de todos. O elo mais fraco quebra.
  E haver ser mais frgil, mais exposto e desamparado do que um beb longe da me? A gente acaba pensando que certos problemas no dependem da modernidade. Para eles, s a soluo dada pela natureza, a responsabilidade da me por sua cria. Qualquer outra soluo ser sempre uma imposio das circunstncias e no a resposta  lei da natureza, que faz um beb depender exclusivamente dos cuidados maternos  pois at o leite que o alimenta vem do peito da me. Ser essa a motivao de que se tenham praticamente acabado as famlias numerosas, que no tempo dos nossos avs chegavam a contar com dez, doze filhos? Ou mais?

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Os pssaros
      
  Em toda a criao, os animais mais perseguidos pelo homem so os pssaros. Os humanos sentem uma atrao especial por esses seres voadores que conseguem fazer, com um bater de asas, certa faanha com que os homens sonharam sempre: voar. Verdade que eles acabaram conseguindo, mas com a ajuda de custosos e pesados aparelhos. Aquele sonho de bater as asas, no caso, os braos, e sair voando, isso no poderemos conseguir nunca. Porque voar, de verdade, s para os pssaros. E foi por constatar essa insofismvel verdade que, pela primeira vez, me senti no direito de ver meu nome sair com destaque na imprensa: os jornais do Cear mostraram fotos minhas entregue a uma das atividades mais nobres que j desempenhei na vida: soltando pssaros.
  O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis), entre as suas diversas atividades, entregou-se a uma misso que a gente pode at chamar de sublime: dar liberdade aos pssaros cativos. Sou testemunha pessoal e at colaboradora dessa generosa atividade. Tive a honra e a glria de receber na fazenda uma delegao do Ibama que vinha com dois carros carregados de pssaros presos em gaiolas, para os soltar nos ares livres do No Me Deixes. Acho que mereci essa honraria, pois sempre foi preocupao minha, desde menina, soltar passarinho preso. Verdade que  meio arriscado: os donos dos passarinhos so capazes de tudo contra algum que libere as suas presas. Mas a alegria de ver voando um pssaro, antes confinado a uma gaiola, paga todos os riscos de represlias.
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  Para mim, o mais importante foi essa reputao que est ganhando a fazenda No Me Deixes de rea livre para passarinhos. Santurio deles. Todos os pssaros apreendidos naquele serto podem ser deixados no No Me Deixes, pois que l, como diz no jornal, " a nica Reserva Particular do Patrimnio Natural existente na regio".
   incrvel a sensao de segurar um pssaro aprisionado nas grades de uma gaiola, senti-lo estremecer sob seus dedos, temeroso, ou antes, apavorado; retir-lo suavemente da priso, levantar os braos o mais longe que pode e abrir as mos no ar, dando liberdade ao cativo. Alguns deles, coitadinhos, de comeo nem acreditam, continuam encolhidos, nem ousam aceitar a liberdade, supondo, talvez, que se trate de mais um truque maldoso dos captores. E o cativo, em vez de voar, se encolhe mais nas suas mos: ento  preciso usar de pacincia, faz-lo constatar por si mesmo que nada mais o segura; voc insiste em abrir as mos e impulsion-lo para o alto.
  Felizmente, para ele se convencer, afinal, de que est livre, leva apenas alguns minutos: sentindo-se simplesmente pousado na sua mo ele tateia com os ps os seus dedos, levanta a cabea ainda duvidando que esteja livre. Mas agora o pssaro se ergue devagarinho nas pernas, agita as asas que voc j no segura, treme, hesita e de repente se atira num vo que ele talvez suponha uma fuga.
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  Naquela manh abenoada, os meus amigos do Ibama talvez no soubessem a alegria que trouxeram  nossa casa. De longe vieram eles, com aqueles carros carregados de gaiolas, cheias de pssaros aprisionados nas vrias feiras das redondezas. E a mim me davam o privilgio de devolver aos ares a mais preciosa das presas: uma linda grana, negra como deve ser, e ansiosa. Segurei-a com ambas as mos, estendi os braos e fui abrindo devagar os dedos que a sustinham. E ela, que se debatera antes ao ser apanhada na gaiola, parece que no acreditou quando sentiu diminuir a presso dos meus dedos. Por uns instantes mostrou-se trmula, assustada. Mas aos poucos descobriu que estava livre. A no hesitou, ergueu-se nos ps, levantou a cabea, experimentou as asas e partiu rpida no vo, sem olhar para trs. Nos deixou nos olhos a impresso de uma flexa negra que subitamente se atirou para o espao. Naquela hora me lembrei do poeta: Deus me deu por gaiola a imensidade, quero voar, voar...
  E o melhor  que a grana no seria a nica para reabrir as asas  liberdade: os moos do Ibama traziam para liberar 207 pssaros, granas, corrupies, canrios-da-terra (s dois, pois so os mais perseguidos), sabis, sabi-gong, 15 galos de campina, sanhaos, 51 periquitos (a maioria deles novinhos, pegados ainda nos ninhos, no sabiam voar. Ficaram sob nossa guarda at que, sozinhos, aprendessem a usar as asas e de um em um conquistassem a liberdade), um azulo, seis caboclinhos, 16 papa-arroz, dois sibites e muitos mais. Foi a glria. A beleza da cena se completava com a beleza do serto naqueles dias: o inverno prolongado ainda mantinha tudo verde e florido, como se preparado para receber o vo triunfal dos prisioneiros libertados.

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Ai, que saudade
      
  Bem me lembro, quando nos tempos de antigamente, a gente navegava de Ita do Norte para o Sul; a viagem era uma constante novidade, cada porto com a sua face especial. Em Natal, por exemplo, a gente comia peixadas que nada tinham a ver com as de Fortaleza e Recife, e ainda se tinha direito a uma visita  casa do Cascudinho (para quem no sabe, tratava-se do Cmara Cascudo, a maior autoridade em folclore, no Pas) e saa de l, alm de banhado em cordialidade e sabedoria, informado onde procurar as coisas realmente tpicas de cada terra em que o navio escalasse.
  No Recife, era aquela riqueza de esculturas de artesanato, os boizinhos de barro, as figuras do Vitalino que comeava a ser famoso e imitado. As peas de prata de uns antigos ourives, ou, teleguiados pelo Cascudinho, descobramos o endereo de alguns incipientes antiqurios, onde se poderia adquirir uma ou outra pea de porcelana, de telha, que os ricos decadentes punham discretamente  venda. Tenho um porta-missal comprado l, nesse tempo. Em Macei, a oferta era principalmente gastronmica, tendo como carro-chefe o sururu: guisado, de capote, em frigideira, tudo ao coco e com muita pimenta.
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  A Bahia, ento, pode-se imaginar. A mo criativa do negro por toda parte, colorida, explosiva, sem nada do jeito do nosso caboclo taciturno. Ia-se ao endereo "exclusivo", de um fabricante do verdadeiro berimbau de barriga  aquele que os negros velhos tocam pelos portais do Pelourinho, e no esses brinquedinhos pinturilados e sem som, que vendem agora. As medidas do Senhor do Bonfim eram em cetim, bordados a mo; as pesadas guia de santo em contas de loua, nica; os grossos cordes de ouro (trancelins) que as baianas em trajo de gala exibiam ao pescoo. Nas comidas, cada amigo nos dava o misterioso endereo do melhor vatap, ou xinxim, em alguma portinha escura de casa velha; ou o tabuleiro da melhor baiana de acaraj, exclusiva. Em todos os portos se comprava o artesanato local, cada um com a sua marca prpria. Em Fortaleza, o labirinto e as rendas de almofadas, os bordados a mo; no Recife, os artigos de couro, os trabalhos em madeira; em Macei, as toalhas de fil, na Bahia os panos da Costa que eles diziam vindos da frica; e outros instrumentos de msica, alm dos j falados berimbaus e as bruxas de pano, ricas e lindas.
  Mas a veio o avio, veio o rdio, a televiso, vieram as empresas oficiais de fomento ao turismo e ao artesanato e uniformizaram tudo. Quem vai ao Mercado em Salvador,  Casa de Cultura, no Recife,  Emcetur, em Fortaleza, s v as mesmas coisas. Aquelas feias peas torneadas, os rosrios em cubos de falso jacarand, uns horrendos pilezinhos; as famosas peas de prata baianas, que hoje raramente so de prata mesmo e sim feita em folha de alumnio. As redes de dormir so de qualidade nfima; os camels, em Olinda, vendem toalhas em renda de fbrica dizendo com a maior cara-de-pau que so preciosas rendas "da terra"...
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  J o malefcio do rdio e TV se opera atravs da fala dos locutores, que se tornaram o modelo uniforme de todos os nossos falares, do Oiapoque ao Chu. E a gria carioca ou paulista, das novelas, acabou com os dizeres locais. E tambm a roupa, as diverses, mas isto j  outra histria. Eu estava com saudade mesmo era dos navios; os avies acabaram 
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 com os desembarques nas escalas e s se conhece as cidades levado pelos pacotes de turistas.

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Quem prende o guarda?
      
  Os jornais noticiam, com o devido arrudo, as medidas tomadas pelo governo, demitindo, licenciando e admoestando, de delegado a praa fardado, policiais provavelmente corruptos, "envolvidos em processos disciplinares ou criminais".
  A notcia no  novidade para ningum. Mas  uma tima notcia. Qual o brasileiro que realmente confia na nossa polcia? Certo que h os bons policiais, honestos e decentes, cumpridores da lei. Mas como h tambm os desonestos e nenhum deles usa placa na testa, o povo generaliza a sua desconfiana. O fato  que, no nosso Pas, o povo no tem f nos guardies da lei.  
  Qualquer brasileiro com quem voc fale a respeito, ter um caso de experincia pessoal sua, em relao  polcia. Ns aqui em casa, por exemplo. Anos atrs, num dia de semana, pelas duas horas da tarde, nos entrou pela porta de servio um bando de assaltantes. Eram trs armados de revlver. Para entrar apresentaram-se como "policiais" que vinham investigar um assalto ocorrido no andar de cima. E quando os fomos atender com a devida solicitude, me botaram um revlver na cabea e declararam o assalto. Levaram tudo  o que mais me doeu foram as jias de famlia, vindas de avs e bisavs.  
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  Mal saram os ladres, corremos ao telefone para alertar a polcia; vieram logo investigadores e outras espcies de agentes da lei. Anotaram as nossas queixas, a natureza e o nmero de objetos roubados, a quantia em dinheiro, tirados da gaveta cuja chave os ladres me fizeram usar. Confesso que essa solicitude da autoridade muito nos confortou. Quem sabe eles iam pegar mesmo os bandidos, talvez at reaver os bens roubados?  
  Mas os dias se passaram e nenhum sinal da ao da autoridade apareceu. E eis que surge num jornal a notcia de que haviam sido presos uns suspeitos de roubo -- s suspeitos -- vinha junto o retrato deles, para ver se algum queixoso os reconheceria. Imediatamente, porteiros e moradores do nosso prdio, reconhecemos a cara de um dos assaltantes, que o jornal publicava. De novo corremos ao telefone. Dez pessoas no prdio, se prontificaram a ir  polcia, identificar o ladro. De l responderam que muito bem, que timo, na hora devida seramos convocados. Mas at o dia de hoje, a polcia no convocou ningum. A nica notcia que tivemos, um ms depois, foi que "o suspeito de assalto Fulano de tal, tinha conseguido fugir do xadrez". No estou acusando ningum. Deus me livre  s conto fatos.  
  O mal foi que perdemos a f na autoridade. A gente se oferecendo para identificar um suspeito, a autoridade no liga a nossa oferta e, poucos dias depois, o ladro "foge" misteriosamente do xadrez?  
  Contudo, sempre nos tinha ficado um pouco de remorso por desconfiar da lei. Os policiais, afinal de contas, no so super-homens, o trabalho deles  difcil e arriscado, etc, etc.  
  Mas, e agora? Diante dessas manchetes de jornal denunciando a demisso de setenta (setenta!) policiais, postos fora do emprego (63 afastados e 7 demitidos) o cidado fica muito inseguro. Inseguro s? Apavorado. Numa terra em que a polcia se associa a criminosos, que ser feito do triste vivente que no porta arma e teria como sua nica defesa os guardas da lei?  
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  A coisa  to escandalosa, dado o nmero dos policiais envolvidos nos delitos que se chega a pensar talvez melhor fosse se apurao e a punio se fizesse em segredo de Justia. Descobrir os policiais desonestos, demiti-los, at prend-los, mas sem alarde, para no assustar ainda mais o cidado desarmado. Contudo, no seria isso ento uma espcie de incentivo ao crime?  
  E se pergunta ento: mesmo que entre os atuais guardies da lei, setenta deles j tenham sido devidamente identificados e possivelmente sero punidos  que garantia tem o brasileiro de que os novos policiais que substiturem os desmascarados, no sero igualmente desonestos? Quais sero os critrios para admitir os novatos? E ento ficamos pensando no Sherlock Holmes e nos policiais de novela inglesa.  
  Da, operar uma devassa, no se revelariam culpados ainda piores que os nossos? E que a integridade britnica, no seja assim to frrea, e na verdade no passe de mais uma iluso de sub-desenvolvimento?  
  De qualquer forma, Aleluia! Desses setenta j estamos livres. E, senhor presidente, senhores governadores, por que no ficam um pouco mais de olho na seleo dos seus policiais? Afinal, em ltima instncia, no so os senhores que mandam prender os guardas?!	
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A fora da gravidade
      
  Eu andava pelos dez anos quando descobri ao mesmo tempo a matemtica (alis aritmtica, por que os professores no falam mais em aritmtica? Menino hoje, por mais analfabeto, s estuda "matemtica"). Pois , de repente descobri o mundo dos nmeros e o mundo dos astros.
  Meus avs e ns morvamos na Praa de So Sebastio, em Fortaleza: duas casas vizinhas, com um grande quintal em comum. E eu tinha dois tios -- um mais velho do que eu cinco anos -- Ccero, que a gente chamava Cici, e o Felipe, um ano s mais velho do que eu. O Cici, que era meio fantasioso, comeou a nos falar no cu exterior, Sol, planetas, Terra. E me revelou que a Terra levava um dia para girar em torno de si mesma e um ano inteiro para dar a volta ao redor do Sol. Foi o meu Coprnico! At ento ningum tinha me ensinado nada, meus pais no acreditavam em educao formal, me deixavam ir lendo o que quisesse -- e eu j lia at Julio Verne -- mas no sabia fazer contas, nem gramtica nem nada. A total autodidata. E a revelao do Cici me fascinou: ento a terra rodava naquela velocidade toda? E por que a gente no caa no espao? Ele explicou que era por causa da gravidade. E eu indaguei: "Gravidade no  esperar menino novo?". Eles riram: esperar menino  gravidez, sua boba. Gravidade  a fora da atrao da Terra, que segura a gente no cho.
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  "No entendi mas no perguntei mais nada, fiquei aborrecida por me chamarem de boba." Depois, indaguei ao Felipe: "E quanto  o tamanho da Terra?". Eles a embatucaram. Afinal, o Felipe, que era bom de contas, se lembrou: Eu s sei que a medida de um metro  a dcima milionsima parte da distncia do Equador ao plo. "E da?" "Da,  que essa distncia representa um quarto da volta da Terra. Se a gente dividir por mil para ter um quilmetro, os 10 milhes de metros (basta cortar trs zeros) d 10 mil quilmetros. Multiplicando por quatro d 40 mil quilmetros, que  a circunferncia da Terra".
  Era muita cincia para minha cabea e eu mudei de tema. "E por que leva um ano para dar a volta em redor do Sol?" O Cici sabia. "Porque a volta do Sol  muitssimo maior." Fiquei numa grande confuso e cheguei a ter pesadelos: saa voando da face da Terra perdida de repente da fora da "gravidez". A minha idia anterior de que Sol, Lua, estrelas eram s um enfeite do cu, j no tinham sentido. Fui tomar satisfaes a meu pai sobre esses assuntos de cu: "O povo diz que o cu  l em cima e o inferno  l embaixo. Mas se a Terra  redonda e tem cu em toda a volta, onde fica o inferno?". Meu pai, meio agnstico, meio crente, me deu uma palmadinha carinhosa e se saiu: "O inferno  aqui mesmo. V brincar!". Fiquei remoendo muito tempo aquela explicao "o inferno  aqui mesmo". Ainda hoje me belisca um pouco. Logo depois comecei a leitura de *Vinte mil lguas submarinas, Viagem  lua, Viagem ao centro da terra* e, pelo menos, acabei entendendo aquela histria de dcima milionsima parte. s vezes me ocorria: como  que eles mediram? Ento entrei no colgio, tive aulas de astronomia, tive melhor notcia do Universo. E, como todo pr-adolescente, passei a escrever meu endereo nestes termos: Rachel de Queiroz, Avenida Visconde de Caupe, Benfica, Fortaleza, Cear, Brasil, Planeta Terra, Sistema Solar, Universo". Acho que todo adolescente fez isso, um dia.
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  Tudo isso me veio  cabea por causa das festas e comemoraes que os homens inventaram. Por que o ano comea em janeiro ou por que em janeiro comea o ano? Deve ser por causa da posio da Terra em relao ao Sol, comeo do inverno no meridiano de Greenwich? Mas em cada continente o inverno comea num dado ms, e nas terras equatoriais o inverno no existe... E, afinal, qual  mesmo a extenso, em quilmetros, da rbita da Terra em redor do Sol? Isso ningum me ensinou. Nunca. E teve um outro mistrio -- o que  um ano-luz? Isso s fui aprender nas vsperas de me diplomar professora. A minha escolaridade foi mesmo muito insuficiente. Em remate de males, vale o lugar-comum: a vida  que  a Grande Mestra. Entre tapas e beijos, feridas que sangram ou que cicatrizam, vai nos levando ao redor do Sol; um ano atrs do outro at que chegue o descanso e nos deponham sob os clssicos sete palmos, protegidos pela gravidade.

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A fbula do homem e seu garrafo
      
  Pelo interior do Brasil  comum a presena de um cara que  chamado de "propagandista". Aqui pelo Estado do Rio, antes da camelotagem desenfreada ele era chamado tambm de "camel".
  Usava roupa vistosa, por exemplo: palet xadrez vermelho e verde, calas bois de rose, gravata azul-beb. Em geral fazia propaganda de remdios que curam tudo, todos os males do mundo, e at maus pensamentos.
  Ouvi que vendia xarope contra sfilis e, referindo-se s doenas "sexualmente transmissveis", falava poeticamente em "mal de amores".
  E foi a propsito de propagandistas que recordvamos ontem, minha irm e eu, um caso que nosso pai nos contava garantindo que era verdadeiro.
  Sucedeu numa cidade cujo nome ele no dava, para "evitar constrangimentos". O sujeito j desceu do trem vestido a carter: terno de listras coloridas, sapato pampa, camisa roxo-batata, gravata amarela.
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  Na penso registrou-se, levou a mala  sua vaga no quarto, e portando um grande rolo de papel debaixo do brao, pediu permisso  dona da casa para expor  sua porta um cartaz, que dizia o seguinte: "HOJE S 16 HORAS, VENHAM VER O HOMEM QUE ENTRA NO GARRAFO!"
  Dali foi  igreja em procura do vigrio, solicitando a Sua Reverncia licena para dar uma demonstrao estupefaciente, tendo como palco a escadaria da Matriz. O padre ficou meio espantado quando leu o cartaz, mas acedeu. Tambm queria ver aquilo. Os outros cartazes foram espalhados pelas ruas, saturando todo o lugarejo.
  Claro que a curiosidade foi enorme. Fizeram-se apostas, teve gente que rasgava nota de cem em duas, que  a maneira mais popular de registrar apostas sem papel escrito. Quem ganhar vai receber do outro a sua metade da nota.
  Logo depois do almoo o nosso homem foi  farmcia, onde negociou o aluguel de um garrafo, de vidro, desses que transportam gua destilada. Da penso, conseguiu ainda uma mesinha, e assim, pontualmente, s quatro da tarde, l estava ele com seus trajos multicores e os seus apetrechos, pronto para a "demonstrao".
  A praa pululava de gente. Faziam-se as mais ousadas conjecturas: "O garrafo  de borracha transparente. No que o homem for entrando ele estica, at caber". Outros acreditavam em hipnotismo. "Ele hipnotiza todo mundo, e a a gente acredita que ele entrou em qualquer coisa". Outros achavam que era s um truque  "No sei como , mas tem que ser um truque".
  E, assim, ele comeou a falar sob aplausos e assobios. Delicadamente pediu silncio  multido: ia comear o espetculo.
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  Tirou o casaco, tirou a gravata, ps no cho o chapu de palhinha, mostrou as mos vazias. Ento, lentamente, lentamente, tentou enfiar a mo direita pelo gargalo do garrafo. No cabia, claro. Estirou o polegar, introduziu o dedo no gargalo  entrou! Mas parou na junta. Ele suspirava, mas, com a mo esquerda, tentou de novo: no entrou. Descalou os sapatos, experimentou o p  qual! No entrou mesmo  era ainda maior que a mo. Tentou o nariz, at que ralou e minou sangue. No entrou tambm.
  E diante do silncio atnito da multido, o homem abriu os braos de pura impotncia e constatou desolado:
  -- Realmente, foi impossvel. Mas vocs bem que viram: EU TENTEI!
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Quem com ferro fere...
      
  Quando o pitecantropo virou homem, a coisa que mais o deveria impressionar seria a vastido do mundo ao seu redor. A terra descambando para todos os horizontes, os morros, as savanas, as florestas. Principalmente as florestas, espessas, quase negras de to verdes... E o cu! O cu sem fundo, sem limite. E ele ainda no descobrira o mar. Mas quando o encontrou, afinal, numa das suas andanas de primavera, recuou, apavorado, ante aquela outra imensido, espcie de cu lquido, tambm sem fim; o furioso, o rugidor como uma horda de lees, se erguendo nas altas vagas coroadas de espuma branca. Dava mais medo que o cu de tempestade, com seus troves e coriscos.
  Milnios mais tarde, o homem medievo j se convencera de que a terra firme era uma imensa plataforma que se estendia por lguas infinitas; j tinha noo e at conhecimento de frica, sia; o mais, seria tudo cercado de mar, que no se sabia como acabava. E, por cima de tudo, o cu, iluminado pelo Sol, a Lua, as estrelas.
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  Veio depois Coprnico, declarando que a Terra era uma esfera, a girar como um pio em torno do Sol. E comearam as grandes navegaes, saindo das guas fechadas do Mediterrneo. Soltaram-se nos oceanos as caravelas portuguesas, deram a volta  frica para sair na ndia; em seguida os espanhis descobriram as Amricas. Depois, Magalhes deu sua volta ao mundo. Mas como tudo parecia grande, como tudo era longe! E, acima disso, perigoso. Meses e meses a velejar em frgeis barcos de madeira, ao sabor dos ventos, das calmarias, das tempestades.  de crer que nenhuma das caravelas que sasse dos portos de Espanha e Portugal fosse acabar velha, ancorada no seu cais, sua nobre madeira corroda, lascada dos embates com as ondas de tempestade, comida pelos insetos roedores das terras quentes de mar alm.
  Para se chegar, da Europa, quer s Amricas, quer  ndia, gastavam-se meses e meses; e cada dia era um risco, cada noite uma aventura; sem falar no tempo das calmarias, quando a falta dos ventos como que ancorava as naus; e grandes e pesadas como eram, no se poderia sequer ajudar com os remos.
  Afinal um ingls descobriu a locomoo a vapor: os primeiros navios cruzavam o mar entre Europa e Amrica, em lugar de em meses, apenas em poucos dias; e os trens j cortavam a Europa por terra; a Rainha Vitria utilizava o seu trem de luxo para ir passar as frias na Esccia. E at no Brasil o nosso D. Pedro II, que inaugurava as primeiras vias frreas, tambm tinha o seu trem que o levava a Petrpolis.
  E, ento, fomos descobrindo como na verdade a nossa Terra era pequena e no a vastido sem fim suposta pelos antigos. E quando afinal, em 1927, Lindbergh transps o Atlntico num curto vo sem paradas e aterrou em Paris, foi o golpe final.
  E agora vivemos todos num mundo minsculo, ameaado de morrer por excesso de gente e por excesso de uso. H populao demais em todos os continentes, em todas as ilhas. A Inglaterra pulula de habitantes que j no so mais os louros e orgulhosos "filhos de Albion", mas mestios de todas as Jamaicas, Tanznias, ndias que ela outrora dominava. E como diz o Pequeno Prncipe: "A gente acaba escravo daqueles que cativa..."
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  Sim, somos demais no mundo. As linhas areas cruzam os cus do planeta com a intensidade, que j  necessrio organizar o trfego dos avies com o mesmo rigor que regula o trnsito nas cidades, infestadas de automveis. Abateram-se as grandes florestas; na Europa, existem apenas os bosques de plantio, enfileirados como soldados em formatura, sem a desordenada espontaneidade da selva natural.
  E nem podemos falar mal dos outros. Aqui no Brasil, a devastao criminosa vai abatendo tudo; no Sul, no Nordeste, no existe mais a mata nativa e as queimadas acabam de destruir o pouco que milagrosamente ainda restava. E j vai adiantada a devastao da mata amaznica. Todo dia a mdia denuncia mais um contrabando do precioso mogno e outras essncias. E o pior  o que se derruba por simples selvageria -- abatendo-se uma floresta a machado, serra e a fogo -- para ali se plantar uma mesquinha roa de mandioca, ou se abrir um pasto para o gado.
  No Nordeste do Brasil  preciso defender da pesca predatria as lagostas em extino, os pssaros exportados clandestinamente  canrios, papagaios, araras, etc. O que dizer ento dos bichos sem serventia, ou considerados nocivos -- as raposas, as onas, os gavies, at urubus? L na fazenda, j faz anos que no vejo uma raposa; e dantes, nas estradas,  noite, elas corriam  nossa frente, encandeadas pelos faris do carro.
  Nisso tudo h um consolo: "Quem com ferro fere..." E o perigoso bicho homem tambm j vai virando animal em extino;  o que acontece com todos os grandes carniceiros: j quase no existem lees no deserto, nem tigres de Bengala; e o mesmo suceder conosco, que somos os mais ferozes de todos os predadores.
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O imaginrio mgico
      
  Os educadores se preocupam muito com a literatura, os filmes, os programas de TV, consumidos pela crianada: a violncia, as cenas de sexo, a crueldade que nossos filhos e netos devem absorver por via dessa exposio permanente. Outro dia, li um artigo numa dessas revistas dirigidas a pais e professores que comenta aquela histria infantil em que a herona, uma princesa,  enterrada pela madrasta; os cabelos da menina crescem, atravessam a terra, e o jardineiro comea a cort-los, pensando ser erva m; e ela ento canta: Capineiro de meu pai, no me corte os meus cabelos / Minha me me penteou, minha madrasta me enterrou... Enterrada viva, era terrvel, era. Mas recordo que eu, menina, tambm ouvi essa histria e aprendi a cantar a cantiguinha (triste, muito mais triste do que a prpria histria), e no "realizava" a gravidade do crime; era s uma das malvadezas comuns de madrasta, tanto que a princesa continuava viva e cantava; e, desenterrada pelo jardineiro, voltava  sua grandeza.
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  Talvez por isso, os excessos da TV e da literatura infantil no fazem tanto mal s crianas: elas tm a defend-las o seu imaginrio mgico, que no as deixa ir ao fundo das tragdias; as madrastas e as fadas malvadas vem sempre os seus crimes castigados e os mortos recuperados. A avozinha de Chapeuzinho Vermelho que o Lobo Mau devora, ter sido mesmo engolida e digerida? Ningum se preocupa com ela, decerto o Lobo a devolve, j que no se fala nos prantos da neta.
  E hoje, esses seriados japoneses da TV? As crianas os acompanham avidamente e eles so terrveis. No s pelos monstros apavorantes, como pelas crudelssimas proezas dos mocinhos, que usam mil maneiras de matar, por raios fulminantes, por esmagamento, afogamento, quedas das alturas ou simples espancamento. E as crianas ficam vendo sem piscar o olho, algumas at torcem pelos viles todo-poderosos. No fundo, elas acreditam que, na realidade, ningum morre; tudo e todos so recuperveis; nunca as vi chorar um heri, uma herona mortos.
  E, depois, h ainda o hbito. Os cenrios aterrorizantes nos jornais e na TV embotam as emoes at de ns adultos, que sabemos de experincia prpria o quanto a vida e o mundo so realmente cruis. Outro dia entrei na casa de amigos para levar umas frutas a uma amiga doente: estavam todos  mesa, jantando, a televiso ligada. Me ofereceram um caf, sentei com eles; na tela acabavam de passar cenas da retirada de vtimas, mortas nos tiroteios no Afeganisto. Depois do desfile das padiolas com a sua carga sinistra, comeou outro noticirio  esse era dos bombardeios na Palestina. Uma bomba caa bem perto da cmera, saiu voando pelo ar metade do corpo de um homem, entre jatos de terra e fumaa. Me encolhi, assustada; depois olhei ao redor, alguns nem olhavam, s ouviam os estrondos; um menino deu um gritinho meio comemorativo, como se tratasse de um gol do seu time; a dona da casa disse com enfado: "Agora s se v guerra na TV". Todos tranqilos, comendo a sobremesa, alheios  carnificina que aquelas imagens registravam. E, no entanto, eram todos gente boa, bons coraes que at recolhem um gato magro, aparecido na rea de servio, se preocupam com os meninos de rua, discutem solues generosas.
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  , a sensibilidade da gente se embota mesmo; a mdia se compraz em trazer para dentro das nossas casas todas as tragdias do mundo e a dose  forte demais. Como as crianas, ento, a nossa defesa  at maior; elas ainda no aprenderam a encarar o irremedivel da dor, do destino, do sangue, da fragilidade da pobre carne humana. Para elas tudo tem remdio, tudo  um jogo, onde o mocinho deve ganhar sempre e o vilo perder sempre. E ns tambm acabamos por partilhar um pouco dessa conformidade otimista. Vemos o que vemos e vamos para a praia. S nos abalamos um pouco em casos como o do ataque s torres gmeas de New 
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 York, de um horror to evidente. Mesmo para a mente embotada aquela imagem foi forte demais.
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Saudades de Guaramiranga
      
  No tempo de minha infncia, quando a gente queria falar no paraso, dizia "Guaramiranga". Ou simplesmente "a serra", que era a primeira e nica. No concebamos que outras serras existissem pelo mundo a.
  No ano de 1919, voltava a nossa pequena famlia de um exlio de dois anos por Rio e Par; mas o serto -- a fazenda "Junco", que seria o nosso refgio, curtia os ltimos meses da seca daquele ano. Meu pai, que detestava cidades, resolveu ento que iramos esperar o inverno onde? Em Guaramiranga!
  A gente nem acreditava. A viagem no era como agora, umas duas curtas horas de carro. Tinha que acordar de madrugada, pegar o trem na Central, viajar at ao meio-dia, para alcanar Baturit. Do trem, se ia para a penso da Dona Ione, e l estaria a nos esperar a "conduo", quer dizer, uma cavalhada, montarias para cada um pai, me, quatro filhos. Roberto e eu montvamos cada um no nosso cavalo; Flvio na lua da sela de um rapaz. E Luciano, pequenino, numa tipia ao ombro de mame; dizia ela (grande cavaleira em sela de gancho) que assim seria "mais cmodo"...
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  Chovia. Um dos acompanhantes segurava um guarda-chuva sobre mame e o menino. Mas ns, os maiores, recebamos gloriosamente as gotas geladas no rosto, no cabelo -- e o mximo era conseguir engolir alguma "to fria que era um sorvete!"
  So, pois, muito antigas minhas lembranas de Guaramiranga. Desde ento "ir para a serra", era para ns o prmio do bom comportamento, do primeiro lugar na classe. Tambm se podia ser levado arbitrariamente, pela Cla, pelo Arcelino, sob os protestos dos nossos pais. Alis, o nome de "Guaramiranga" no era a denominao da vila, chamada at ento de "Conceio". Guaramiranga era (e , ainda), o stio fundado pelo nosso bisav, o velho Joo Batista Alves de Lima, que criou o seu stio no fim da rua, a qual corria sob o morro da matriz (de Nossa Senhora da Conceio). Do stio, o nome passou  vila e, j agora  cidade de Guaramiranga.
  Sei que no Nordeste e, portanto no Cear, as coisas no so fceis quer para os da terra, quer para os seus governos; mas Guaramiranga merece todo impulso que governos e gente importante lhe possam dar. Alis, o nosso caro governador Tasso, tambm, faz parte dos "meninos de Guaramiranga": sei que deve estar pondo os seus olhos por l.
  Mas Guaramiranga no pode mais continuar a ser apenas o pomar da serra, onde as frutas tm cheiro de flor. Com o seu potencial de clima, de vegetao, de produo frutfera, de caf -- Guaramiranga pode vir a ser o que Petrpolis e Terespolis tm sido para o Estado do Rio: fonte de turismo, em todas as suas modalidades, inclusive a de sanatrio natural para os doentes. Pois, com todos os avanos da medicina moderna, o clima ainda funciona, como fator essencial, para a cura de pulmes enfermos.
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  No tenho ido  serra nestes ltimos anos. As fugas daqui do Rio so todas para o serto. Por isso mesmo, Guaramiranga, aos meus olhos, ainda brilha como o paraso dos meus anos jovens: o verde, os morros, os cafezais, a matriz, em cujo adro ns, crianas, brincvamos de "pega-ladro", escondidos atrs das paredes venerveis da Matriz. As frutas! E aquele cheiro de flor que emana da vegetao, da prpria terra, como se a serra inteira fosse um imenso roseiral.
  Uma boa nova: j se sabe que a Serra de Baturit foi consagrada pelo governo federal como rea de Proteo Ambiental (APA). Em condies, portanto, de receber todos os benefcios oficiais que desse ttulo resultam. Realmente, s a ao de um rgo do governo pode conter o desmatamento predatrio, a destruio das condies originais de morros e ladeiras.
  E uma vida cultural importante emerge desses novos critrios. Hoje, por sorte, a Serra Baturit ainda no  atacada pelo progressismo impiedoso;  um convite dos que tm amor pelos nossos marcos histricos e se fazem zeladores benvolos do que ainda resta de velhas residncias, "fbricas" (engenhos) e casario urbano; e, principalmente, as igrejas. Que o poder baixe os seus olhos sobre a serra, sobre Guaramiranga, e ter o apoio e a gratido dos que, como esta modesta escriba, guardam a viso de paraso, do que foi e poder continuar a ser Serra de Baturit e a cidade de Guaramiranga.
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Esta minha eterna litania
      
  Dezembro, todo ano, comea a grande movimentao dos nordestinos exilados. Cada um tem o seu informante especial na terra, criou-se quase um cdigo entre eles.
  O telefone toca: "Rachel? Novidade! Aqui no Quixeramobim o cu est muito bonito, desde as trs horas da tarde. Todo escuro, muita nuvem do lado do nascente...  capaz que ainda hoje..." O cara pode ser boateiro ou esperanoso demais,  bom confirmar. Alm disso, Quixeramobim no  no Quixad, fulcro principal do meu interesse.
  Telefona-se para Quixad. -- Fulano? Aquele seu camarada do Quixeramobim telefonou dizendo que o cu est armado por l, todo cerrado pro nascente... E a? -- O outro no est to animado: 
 -- Olha, aqui no est se vendo armao nenhuma. S aquelas nuvenzinhas brancas, esfarrapadinhas -- voc sabe -- como se s fossem umas riscas no cu; fininhas no tm nada dentro. Iguaizinhas quelas que aparecem no calor de vero...
  A linguagem no  de meteorologistas, ningum fala em cirrus, cumulus, nimbus, mas o assunto  de meteorologistas, sim. E os observadores so aplicados, vm passando a vida olhando o cu, conhecem uma nuvem de chuva como conhecem o rosto da mulher amada. E a recebem com o mesmo carinhoso entusiasmo.
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  E como no estamos por l, nessa fase de esperana e angstia (pois enquanto escrevo e remeto estas linhas, pode estar havendo mudanas) a conversa fica meio surrealista.  Voc tem a mania de se amarrar no poente! Olhe o nascente, homem! J vi muita nuvem boa se despregar do nascente!
  Agora que por todo o serto h telefones, a conversa ficou menos difcil. Dantes, eram os portadores com bilhetes de l para c. E o portador que trouxesse boas novas, ganhava gorjeta, prato de almoo, servido na mesa, na sala do patro.
  Distante, aqui no Rio, me sinto um pouco traidora. Como uma espcie de av que no assiste ao parto da filha, no escuta o primeiro choro do neto. Minha obrigao era estar l, espiando o cu, junto com os outros, interpretando o barulho dos troves  ou, se no houver troves, apurando o olhar e o ouvido para detectar por outros indcios a tristeza ou a esperana.
  Para descarrego de conscincia, corro aos jornais. Os daqui, claro, no dizem praticamente nada.  mais fcil notcias da Chechnia que seriam teis para quem sabe onde  a Chechnia.
  Este nosso Pas  grande demais. Os noticirios correm todos para os grandes estados, as grandes cidades, greves, furaces, discursos de polticos, previses sobre quem sobe e quem desce. Mas notcias de quem mora num retalho do Nordeste do tempo que faz por l, das esperanas ou desenganos do povo, quem  que cuida?
  O telefone, por sorte melhorou muito a rede de informaes de l pra c. Os caboclos j esto instrudos para telefonar (a cobrar, claro) ao menor sinal de esperana. E ficamos, ns, os exilados, esperando a notcia decisiva, que  a boa. As ruins so traduzidas pelo silncio. No h o que noticiar no que no aconteceu.
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  De novo, o telefone tocava, a gente corre, pensando que  de l. No,  um cara indagando o endereo da Academia de Letras (onde h vaga). Respondendo secamente que o endereo est na lista telefnica. Ser mais um candidato? Bem, quantos sejam, esperemos que o melhor vencer.
  Quando largo o telefone, uma chuva repentina tamborila no nosso telhado, aqui no Rio. E o meu sentimento : "Mal empregado!" Como se aqui no precisssemos de chuva, tambm. Mas a verdade  que, por mais tempo que se passe "aqui fora", o velho corao no sai de l, ouvido atento, vigilncia permanente a todos os sinais de alarme ou de esperana.
  Meus leitores de So Paulo me entendero. J h tambm nordestinos infiltrados na populao paulista, que eles sabem onde devem esperar das nossas fixaes inalterveis.
  Vocs, que nasceram nessas terras ditosas, onde correm o leite e o mel (e o caf tambm) devem nos compreender e aceitar. E quando passarem por alguma igrejinha freqentada por nordestinos, e escutarem a voz da rezadeira tirando novena, por favor, acrescentem a sua voz  dos que rezam e digam tambm: "Rogai por ns!" Com toda certeza estaro pedindo chuva.
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Nosso velho problema
      
  Aquele leitor que semanas atrs me mandou perguntas, volta  carga, agora com indagaes sobre o Nordeste e seus problemas. A, o Nordeste e seus problemas tm sido o meu po de cada dia desde aqueles longnquos anos 30, quando estreei com *O Quinze*. Porque o Nordeste ningum acaba com ele nem com os problemas nem com a seca. Vamos ver as perguntas do moo suponho que seja um moo  aparentemente to ligado ao drama nordestino quanto ns, os velhos de l.
  Primeiro ele indaga se a misria existente no Brasil no  especialmente conseqncia das secas.
  A seca  apenas uma das causas de misria. No serto h um ditado sobre isso: "junta-se a fome com a vontade de comer". A frase  irnica como o  a sabedoria sertaneja. No  s a falta de reserva alimentar a causa principal da misria. So as condies que levam a essa falta. Me explico melhor: quando h uma seca no se colhe safra nenhuma e portanto no h como fazer uma reserva alimentar. E nisso  que est a nossa tragdia: quando no h chuvas no tempo certo no se colhe o milho nem o feijo. Ento como fazer a reserva? O mal do Nordeste decorre unicamente das irregularidades das chuvas. E pode se resumir em poucas palavras; se h inverno, quer dizer, se h chuvas, o feijo e o milho que so os itens bsicos da nossa alimentao, so colhidos em abundncia e ningum fala em fome. Se no chove no h colheita a guardar, e no h portanto o que se comer.  uma equao extremamente simples.
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  Dentro de condies to severas, o que no se entende  por que o Nordeste continua to povoado e sua gente to teimosamente agarrada  terra. O Brasil  to grande, possui tantas terras boas para cultura, com regime de chuvas regular e por que os nordestinos no emigram para essas regies que aos prprios olhos deles, surgem como um paraso?
  A  que est o mistrio: por que a gente ama to desesperadamente aquela terra que  muito menos me do que madrasta?
  Na verdade esse enigma  a grande chave para a resposta s indagaes do moo perguntativo sobre o Nordeste e suas condies de vida.
  Por que o nordestino no se muda para regies mais amenas onde as condies de vida no sejam to irregulares? Bem, ele sempre experimenta. Rarssimo  o nordestino, e j no digo o de classe mdia e alta, mas at o mais humilde que no tenta a emigrao. Ele sai, ele tenta, mas ele volta. No  que ele se desiluda sempre. Ao contrrio,  mais fcil que ele encontre condies favorveis na terra nova. O velho corao  que no se acostuma. A semente da saudade no morre com o transplante. Parece at que rebenta com maior vigor. Isso que estou dizendo no  literatura:  a simples observao. Basta consultar as estatsticas.
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  Alis, quem consulta as estatsticas d de cara com o mistrio porque, consultando qualquer estatstica verifica-se que o nmero dos nordestinos que sai  quase sempre menor do que o nmero dos que volta. A explicao  simples: a crianada que nasce no "exlio" no perde a "nacionalidade" nordestina. H muito caboclo com cara de sertanejo, com hbitos de sertanejo que nasceu em So Paulo. E curiosamente, eles em geral escondem o seu nascimento paulista como se fosse um tudo por recuperar o sotaque da terra, se por acaso o perderam, numa ausncia mais longa. E mesmo quando conservam o acento, tero que o perder rapidamente por causa da gozao dos outros.
  Eu, de mim, creio que a causa desse amor indestrutvel que temos  nossa terra, por vezes to ingrata,  o contraste que ela consegue apresentar entre os meses de inverno e vero. Por causa das condies difceis do nosso vero, que se trocam com rapidez do inverno, fazem com que superestimemos as delcias do verde e da fartura. O que se sofre para alcanar o inverno  como um preo que se paga pela sua recompensa.
  Muita gente pensa que os governos, se o quisessem realmente, resolveriam o problema das secas nordestinas. Eu no sei Governo no  Deus, no  santo, nem faz milagres. E essa histria de seca e de inverno no Nordeste parece que  assunto que s Deus resolve.
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Eu e o meu bisneto Pedro
      
  Ontem, 14 de julho, meu bisneto fez 2 anos. Essa histria de data de aniversrio sempre amargurou minha infncia.  que nasci a 17 de novembro, dois dias aps a data da Proclamao da Repblica. Como  que minha me tinha feito isso comigo, deixando-me perder por dois dias a coincidncia com o feriado nacional. No colgio era uso se faltar s aulas no dia do nosso aniversrio. Mas com o feriado da Repblica to prximo, as irms chegavam a sugerir que eu no faltasse no aniversrio e o comemorasse na data nacional.
  O Pedro pelo menos ver seu aniversrio coincidir com o *14 juillet*, data importantssima em todos os calendrios republicanos do mundo. J no  pouca coisa. No sei que mundo ir encontrar o Pedro quando ficar adulto. As mutaes do mundo atual esto vindo to vertiginosas que  perigoso fazer prognsticos a respeito.
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  E da, quem sabe? Quem sabe a humanidade cansou de aceitar mudanas e vamos entrar num perodo de estabilidade. Afinal, no faz muito tempo, os pais podiam antecipar a carreira dos filhos, decidir quem ia ser mdico, ser engenheiro, ou um simples bacharel, como todo mundo? Hoje, h at profissionais especializados nessa deciso. Interrogam o estudante, descobrem-lhe as aptides e do a sua sentena. O que no sei  se sero obedecidos e quando o forem, quem pode adivinhar se vai dar certo? Pois os jovens no costumam combinar os seus sonhos com as decises de quem os governa. Sei de um pai de quatro filhos que sonhava em ter pelo menos um deles mdico e viu os trs bacharis e um sem curso.  um erro freqente em que caem os pais: ao nascer o menino, junto com as fraldas eles lhe preparam um futuro. No pensam que aquele filho  uma pessoa, que ter seus sonhos prprios e suas ambies prprias. Parece que o mais prudente para o pai  no se antecipar. Entre outras coisas, o filho pode ser avesso aos estudos e sonhar apenas em possuir um cantinho de terra onde plante e colha ou, no mximo, ter uma vacaria.  comovente a revolta dos pais ante essa "desobedincia" dos meninos, como se eles fossem obrigados a alimentar sonhos por conta dos sonhos paternos.
  O citado Pedro meu bisneto, provavelmente os seus sonhos, por ora, no vo muito alm de passear de carro, ou fugir s mos maternas correndo para enfrentar onda na praia. No se pode negar que isso j seja uma aspirao  liberdade. Ele ainda no sabe se expressar em palavras e, portanto, os seus pensamentos, desejos e aspiraes so um mistrio para os adultos. No sei porque, a natureza apaga todas as lembranas iniciais da infncia. Seria to curioso saber o que o beb, quando nos fita, estar pensando a nosso respeito. Provavelmente no sero sentimentos amistosos, antes reclamaes exacerbadas. Por que a me no o deixa ficar em seus braos, apoiado em seus ombros, cabea erguida, contemplando o mundo? Mes tm o costume desagradvel de querer que o beb fique no bero, com um nico momento excitante: a troca das fraldas. Excitante para os cretinos dos meus colegas, que passivamente aceitam a rotina materna. Mamar, dormir, dormir, mamar.
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  Mas quem tem esprito de liberdade, tem aspirao: quer olhar da janela o movimento da rua, ou quando viaja de automvel quer brincar com o volante como faz o pai. Mas pais acham que tm privilgio de tudo: por exemplo, deixar cair um prato no cho e v-lo virar-se em cacos. Para ns, esse prazer s se pode realizar quando a gente falsifica um acaso. Se jogar o prato visivelmente com conhecimento prvio, leva palmada na certa; ou em casos de pais realmente compreensivos, pelo menos um grito se leva. Coisa diferente acontece quando o fato se d em casa dos avs. L  a prpria av que corre a esconder os cacos para que o flagrante no ocorra.
  Ah, a vida de um beb no  to fcil quanto se pensa. Voc tem que aprender uma lngua desconhecida, palavra por palavra, como se morasse em pas estrangeiro. A sorte  que, na sua maioria, os pais tm o corao mole e uma louvvel tendncia a perdoar e mudar de assunto.
  Do ponto de vista do beb  muito mais compreensvel entender pai e me do que eles entenderem as crianas pequeninas.
  Eles acreditam que, como o beb no fala, no pode alimentar raiva, cime, tdio, impacincia. Afinal, o nico meio de comunicao de que dispem  o choro.
  Vou tentar me comunicar com o Pedro e descobrir o que pensar ele sobre esses assuntos palpitantes. Contudo, no espero muito xito. Ele no preza as artes da comunicao.
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               oooooooooooo
 
40 graus  sombra
      
  O calor diablico que vem assaltando o Rio de Janeiro (e imagino grande rea em todo o Pas) deveria ser considerado calamidade pblica, j que praticamente impede a vida normal da pessoa humana.
  E me queixo assim quando, a bem dizer, sou uma das pessoas privilegiadas que possuem condicionador-de-ar (s em duas peas da casa), ventilador, mas as janelas largas, que eu supunha uma defesa, na verdade aspiram o ar ardente da rua, deixando-lhe entrada franca e domnio total do ambiente.
  Diz-se nos livros que o calor  a fonte da vida. Que pena! Por que Nosso Senhor, na sua divina sabedoria, no inventou um mundo onde a vida pudesse rebentar em montes de neve, no fundo de guas geladas? Seramos dotados de carapaas contra o frio, como os caracis. Talvez eu esteja a escrever bobagens:  que o calor de 40 graus provoca distrbios no crebro, impedindo um raciocnio positivo e aparando as antenas do senso crtico.
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  Os cariocas, vendo a minha quase agonia nestes horrores do calor no Rio, espantam-se: "Mas voc l no Cear no tem um calor to forte que vira seca?"
  Negativo, senhoras e senhores. No Cear, como em todo o Nordeste, existe, sim, o fenmeno da seca. Mas ao mesmo tempo em que no chove existe um fenmeno celeste chamado vento. Onde quer que voc esteja, h sempre, na sombra ou ao sol, a movimentao do ar, as brisas, os ventos, as ventanias. L no serto, a lguas e lguas do litoral, quando a tarde esquenta, de repente um sopro suave, fresco, lhe acaricia a face, vindo das bandas do mar,  o famoso aracati, palavra da lngua tupi que, me explica um entendido, quer dizer vento bom, vento doce.
  Mas por estas terras de norte a baixo, os ventos s aparecem na forma de furaco. Alis, parece que os furaces costumam castigar as terras mais para o sul. No Rio, por exemplo, o calor  abafado, morno (morno!, se chega a 40 graus?) voc se sente na sua casa, no seu quarto como se estivesse dentro de uma chaleira aquecida a fogo baixo, e tampada. Exagero? Como? Se ontem foram 40 graus registrados nos termmetros, e hoje prometem o mesmo, estamos, sim, em temperatura de chaleira. A gua ferve a perto de 100 graus. Com os nossos 40 graus, estamos, pois, pela metade da fervura! E o que se verifica, nesses veres ardentes,  que o animal humano no foi feito para essas altas temperaturas. At a juventude, nas praias se abriga em baixo das barracas, onde o calor  forte, mas pelo menos o sol no queima direto. E os que no tm barraca se metem dentro da gua, at o pescoo. Muito raro ver algum lagarteando ao sol; alis v-se, sim; ainda ontem passvamos de carro pela avenida Atlntica e assistamos ao salvamento de um rapaz atacado de insolao. Os enfermeiros o transportavam numa maca. Inerte. Mas o povo , ou doido, ou corajoso demais. Pois logo aps satisfazerem a curiosidade, davam todos as costas e corriam, pela areia escaldante, aos saltos, em procura da beira-mar.
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  Mas as sonhadas terras onde no se conhecem nem os veres escaldantes, nem os invernos congelados, existem sim: no Nordeste. So as nossas serras. Nelas, reina, diramos, a eterna primavera, se a gente soubesse mesmo o que  primavera. O que no  verde,  flor, o que no  flor,  fruta. E l h uma especialmente ainda: a fruta tem cheiro de flor. As tangerinas tm o perfume da flor que as gerou, o perfume dos botes brancos que as noivas usam coroando o seu vu: a flor de laranjeira.
  Alis, no s as nossas serras conseguem ser lindas e perfumadas. O serto, nos meses de maio e junho tambm  todo flor. As rvores escondem as folhas sob as flores. E a caatinga se vira em jardim: nos audes, as aguaps trescalam.
  E quem assistiu alguma vez a essa viso do paraso, entender por que nos nossos coraes ela no pode se apagar nunca. Por mais longo e distante que seja o exlio.
  Ou, talvez sejam as agruras da ausncia que nos provoquem esses excessos sentimentais. Talvez seja tambm da prpria natureza humana essa tendncia contraditria de valorizar o perdido, em relao ao possudo. Ado e Eva no paraso propriamente dito, no aprontaram tanto at que o Senhor os retirou de l? E o mais grave no demorou a suceder, com o assassinato do doce Abel pelo cruel Caim? O que prova que ns, homens de hoje, no somos to maus assim.  s correr os registros criminais e se verificar que a nossa cultura trata como crime mais que hediondo o fratricdio e o castiga com singular severidade.
  A gente se mata entre si, mas para isso temos as guerras oficiais, declaradas. E nesses casos, o homicdio  festejado, premiado, condecorado.  heri quem mais matou inimigos. O difcil  entender por que motivo o inimigo  o inimigo. Por que determinada poltica cobia terras alheias e para onde expulsaramos os donos delas, ele vira o inimigo? Ou, quando um monstro enlouquecido, 
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como Hitler, inventa ser o Senhor do Mundo. E  espantoso os inocentes que conquista, como se a sua loucura fosse um mal contagioso que pega de uns para os outros, como varola.

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Fim da Primeira Parte